Rebeldia Folkcomunicacional

coletivo rebeldiaNo artigo sobre o ex-voto como veículo jornalístico  (1965) Luiz Beltrão registra o conceito seminal de folkcomunicação, advertindo:  “Não é somente pelos meios ortodoxos que a massa se comunica.e que a opinião pública se manifesta. Um dos grandes canais de comunicação coletiva é sem dúvida o  folclore”.

O autor sugere que, intervindo no fluxo comunicacional, através da leitura crítica das carências populares (para produzir mensagens altruístas) e da mobilização das classes subalternas (para  produzir feedback militante),  as vanguardas midiáticas lograriam acelerar as mudanças  sociais, neutralizando os conflitos e mediando a cooperação produtiva entre os donos do poder e os agentes coletivos.

A tese beltraniana  configurou-se como resultado das circunstâncias históricas que produziram os cenários da guerra fria, tornando obsoletas as categorias de análise correntes, uma vez que as formações sociais dos países periféricos foram sensivelmente  afetadas pelas migrações nacionais (campo-cidade) e internacionais (miseráveis-opulentos).

Evidências germinadas a partir dos anos 1980 determinaram a atualização do panorama folkcomunicacional, face ao desafio da nossa integração  ao bloco acadêmico emergente no espaço  posteriormente vislumbrado pela geopolítica da conexão BRICS (Brazil, Russia, India, China, South Africa).

A adequação conjuntural em curso  permite  redefinir a Folkcomunicação como  “comunicação dos marginalizados” (1980),  enunciando a superação do complexo do “vira-lata”, atitude que imobilizou academicamente a geração beltraniana,  temerosa de desvendar os “catimbós” epistemológicos sugeridos por cientistas considerados “radicais”. Somente intelectuais destemidos como Edison Carneiro ousaram compreender a “dinâmica do folclore” expostos aos raios causticante da “luta de classes”,  implícitos no guarda-sol gramsciano.

Aliás, o patrono da folkcomunicação estava calejado pela audácia de escrever um livro de reportagens simpático à China de Mao-Tse-tung publicado em 1959,  amargando dissabores que o  acompanhariam até o fim da vida.

Foi exatamente nessa conjuntura de radicalização política que Luiz Beltrão atualizou o conceito da disciplina, assim  enunciado: Folkcomunicação é o processo de difusão simbólica dos conteúdos gerados pelos contingentes marginalizados da sociedade: grupos rurais, urbanos e culturais – bem como a eles referidos.

Para celebrar os 50 anos da Folkcomunicação formou-se o Coletivo  Rebeldia – Rede Beltraniana de Estudos Interculturais Avançados – determinado a  fazer uma análise do contexto que desvenda a natureza desses fenômenos  no tempo e no espaço.

Os pesquisadores  vão criar o  Observatório Folkcomunicacional Brasileiro para estudar o conteúdo  veiculado pela sociedade  através da internet:  temas de folclore/cultura popular, inclusive  o registro informativo sobre as camadas populares, marginalidade cultural, inclusão social, durante o ano que o país festeja o cinqüentenário dessa disciplina das Ciências da Comunicação.

por José Marques de Melo.
(Revista IMPRENSA. n. 306, p.76, novembro/ 2014)

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