Publicada a Carta Sul-Americana das Culturas Populares

Dentro dos debates promovidos pela UNESCO sobre Identidade, Cidadania e Cultura Popular, foi gerada durante o Encontro de Culturas Latino-Americanas, realizado em Caracas, Venezuela, em novembro de 2008, uma carta que reinvidica o papel do conhecimento popular dentro da cultura. Sigua lendo a notícia, para ter acesso á carta na íntegra.

Carta Sul-Americana das Culturas Populares

Nós, participantes do II Encontro Sul-Americano das Culturas Populares, que representamos as delegações da Argentina, Bolívia, Brasil, Equador, Paraguai, Venezuela, com a presença de Cuba, como convidada, chamamos a atenção de nossos governos para que reconheçam o extraordinário valor deste Encontro, que aceitem e incorporem as afirmações e as propostas dos mestres e mestras das culturas populares, que são a alma, o passado, o presente e o futuro de nossa América.

A presente reunião se conecta também com os alinhamentos da Convenção sobe a Proteção e Promoção da Diversidade das Expressões Culturais da UNESCO (outubro de 2005), que vem, justamente, enfatizar a defesa, a valorização e a promoção das culturas tradicionais e o respeito à diferença dos povos de todo o mundo.

Este momenta tem um grande valor histórico também porque, em uma quarta semana de novembro (precisamente de 25 a 27 de novembro de 1970), ha 38 anos, foi realizada em Caracas a primeira Reunião Interamericana de Especialistas em Etnomusicologia e Folclore, da qual resultou a Carta do Folclore Americano.

Naquela época e naquele contexto social, cultura e político, a Carta concretizou a aspiração de uma geração de pesquisadores e representantes de órgãos estatais e internacionais de todo o continente para que as culturas tradicionais da América Latina fossem protegidas, difundidas e promovidas.

Ao contrario de como se propôs daquela primeira vez, na qual os mestres e artistas populares, os povos originários e as comunidades de afro americanas não estavam presentes, esta carta e escrita com a participação deles e em um novo momento histórico da America Latina, no qual muitos países atualizaram suas constituições, elaboraram políticas, programas e legislações para incorporar as demandas populares e o reconhecimento de toda sua diversidade cultural, de modo a promover a inclusão social. E, ainda mais, em um momento em que os mestres das culturas populares têm a palavra e são protagonistas de suas conquistas e demandas, que este documento desperte a consciência dos governos sul-americanos para se identificarem com estes sentimentos e se comprometerem integralmente em implementar as propostas de políticas publicas que os mestres e artistas populares, povos originários e comunidades afro-americanas assinalaram neste documento.

II.

A partir do II Encontro Sul-arnericano das Culturas Populares, os rnestres e as rnestras, os grupos e redes da cultura popular, artesãs e artesãos, pesquisadores e representantes dos Estados, de cada país aqui representado, expressarnos a necessidade de destacar o que foi invisibilizado e silenciado ao longo do tempo, de obter mais respeito, de garantir a cultura como um direito humano fundamental. Além disso, esperamos que naquelas regiões da América em que, infelizmente, ainda se sofre com a falta de recursos, a discriminação e a ausência de mecanisrnos adequados de registro e proteção, se superem tais condições.

Considerarmos que a cultura produz vínculos sociais duráveis e que, para fazer uma verdadeira revolução com cidadania, temos que começar pela cultura n medida em que um povo que não se envolve no processo de construção de sua cultura não tem sentimento de pertenciamento.

Não podermos deixar morrerem as culturas populares, nem deixar que os produtos da indústria cultural transnacional, sem raízes em nossos povos, tenharn mais importância e apaguem a nossa.

O mundo tem que se abrir. É necessário criar um ambiente de confiança no qual todos se sintam livres para expressarem suas artes e saberes. Hoje em dia desejamos ter mais espaços onde possamos expressar nossos sentimentos. Existem aqueles que podem e os que não podem. Precisamos deixar aflorar o sentimento reprimido para que nos seja permitido crescer, como a germinação de uma planta, como a seiva que alimenta sua vida.

Para transformar a realidade vivida atualmente pelos mestres e artistas populares, reconhecemos a importância de promover a integração, não apenas regional, mas também entre os povos e os mestres e artistas populares. Precisamos eliminar simbolicamente as fronteiras que são criadas pelos homens, para promover Integração com Diversidade.

Neste sentido, os grupos, redes, mestres populares e representantes dos Estados, aqui reunidos, afirmam que o sonho da integração está deixando de ser uma utopia e se convertendo em uma realidade. Estamos construindo uma ética popular dos nossos povos sul-americanos.

A integração nos faz irmãos, enriquece saberes e sabores e se cristaliza nos âmbitos culturais, sociais e políticos.

Acreditamos que a cultura pode se tomar um veículo de coesão, que nos mantém unidos como família e nos serve como alimento espiritual. A promoção de encontros ajuda a garantir nosso direito de conhecer uma parte de nos mesmos que não conhecemos. Nestes encontros, a cultura todo o universo cultural se abraçam. Esta fusão cultural nos enriquece e nos alimenta, como uma vitamina para a alma.

Ao mesmo tempo, queremos garantir a integração com diversidade. As diferenças ou variações das manifestações culturais não implicam na desqualificação de algumas delas, mas sim, expressam o interesse em proteger as raízes de cada uma.

Além da integração, afirmamos que é essencial a atuação do Estado para promover e dar base para multiplicar a sabedoria popular dos mestres, sem ter a participação em organizações políticas como condição.

Valorizamos um governo popular que aponte para a inc1usão social, a proteção das culturas populares e que apóie as pessoas que estão trabalhando diretamente com a cultura popular.

Por isso, acreditamos que é necessário romper com o paradigma do apoio único às Belas Artes.

E, mais que tudo, que a voz e a decisão sejam, a partir de agora e para sempre, dos mestres e artistas populares. Nesse sentido, precisamos defender a autenticidade e a autonomia das culturas populares, com um despertar para o coletivo.

III.

Precisamos promover e preservar as culturas populares, reunindo e deixando fluírem novas criações. Para isso, deve haver em todos os países um casamento entre a cultura e a educação, valorizando os mestres como docentes nas escolas e universidades e ensinando professores a dançarem, tocarem e brincarem, por exemplo. Devemos unir cultura e educação, se queremos a continuidade das culturas populares, ensinar as crianças e os jovens para que se perpetue o saber e a cultura do que nos é próprio. Se a educação é um direito de todos, devemos criar as condições para que a cultura também possa ser.

É importante promover o conhecimento mútuo das expressões das culturas populares, por meio de um mapeamento regional. Paralelamente, propomos a elaboração de uma política de gestão de riscos das expressões das culturas tradicionais e, a partir disso, criar um fundo latino-americano para proteção e promoção de nossas culturas.

O registro e a difusão de tudo o que fazemos são também formas de resistência.

Para contribuir com a preservação e a dignidade deve ser criada, dentre outras coisas, uma pensão digna aos mestres, que fazem a beleza de seu pais com tanto trabalho e amor.

Devem ser criados centros de formação permanente sobre as culturas populares, para que os mestres e artistas possam circular entre os países na qualidade de mestres, promovendo a interculturalidade.

Requere-se proteger o patrimônio lingüístico sul-americano, fomentando seu reconhecimento como línguas oficiais e promovendo sua aprendizagem e seu uso.

Devemos ter consciência de que as culturas populares não são predadoras do meio ambiente. Ao contrário, nas comunidades em que as tradições estão vivas, 0 meio ambiente e a biodiversidade estão preservados. E, alem disso, os produtos industrializados descartados são transformados para gerar beleza, desfrute e desenvolvimento humano.

IV.

Com estes processos, podemos construir nossa obra e nossos sonhos. Podemos compartilhar e multiplicar nosso amor, paz e liberdade. Assim, vamos chegando ao contexto necessário para ter apoio com humildade, união e diálogo.

E devido à possibilidade de criar um lugar onde toda a juventude sul-americana tenha vontade de aprender as tradições, que vale a pena estarmos aqui e fazer todo este esforço. Assim, saberemos que vale a pena estar aqui e fazer todo este esforço. Assim, teremos a possibilidade de que os jovens resgatem os frutos velhos, semeando novas sementes para o futuro.

Cultura popular é reinventar o mundo. É fundir o ouro, o cobre, o chumbo, a prata, e construir os instrumentos, e curtir o couro; e moldar o barro, polir a pedra, tingir a areia, converter penas em coroas verdadeiras, talhar a madeira, tecer as fibras das árvores e, com elas, tecer a fibra da humanidade nova. E cantem livres aos ventos que os levem a uma roda de dança que cultive nossos povos, nutrindo assim a nossa espiritualidade

Nós, mestres, mestras, artistas, pesquisadores das culturas populares, povos originários, comunidades afro-americanas e representantes da sociedade civil e dos Estados, subscrevemos:

Caracas (Venezuela), 28 de novembro de 2008.

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