Pesquisador da REDE FOLKCOM aborda a pesquisa em Comunicação no “interior do interior” do Brasil

Lawrenberg Advíncula da Silva (Foto: Taís Ueta)

Lawrenberg Advíncula da Silva (Foto: Taís Ueta)

Desde o ingresso no corpo docente da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) em 2010, o professor e pesquisador Lawrenberg Advíncula da Silva está fazendo a diferença para o ensino e pesquisa de Jornalismo no Campus de Alto Araguaia, localizado a cerca de 420 km da capital, Cuiabá.

Graduado em 2007 e mestre de Estudos em Cultura Contemporânea em 2010 pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), a atuação de Advíncula da Silva rendeu 23 Prêmios Expocom (organizado pela Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação – Intercom), sendo 21 regionais e dois nacionais em diversas categorias: desde jornal mural, passando por fotografia, audiovisual e telejornal laboratório. Ele costuma se referir à pesquisa no “interior do interior” do Brasil, relacionando-a à região conhecida como “o vale dos esquecidos”.

Hoje, apresentamos a trajetória do jovem pesquisador e como ele construiu novas perspectivas para seus alunos e para a produção local de conhecimento. A entrevista foi concedida durante visita do pesquisador a Cuiabá.

Fapemat Ciência – Conte um pouco de sua trajetória na Unemat.
Lawrenberg Advíncula da Silva – Em 2010, comecei como professor interino no Campus de Alto Araguaia. Comecei mapeando a produção que havia lá, tanto de Trabalhos de Conclusões de Cursos (TCC), publicações desenvolvidas ao longo do curso e eventos realizados no Campus, para compreender melhor a matriz curricular e abordagens utilizadas.

À época, já tinha leituras sobre comunicação popular, mais especificamente estudos culturais latino-americanos. Daí, surgiu a ideia de se pensar uma comunicação mais voltada para as questões do interior de Mato Grosso, que, evidentemente, é o contexto onde estou inserido. Isso obriga automaticamente a se pensar em uma especificidade mais rural do que cosmopolita.

FC – Historicamente, as teorias da comunicação vêm no sentido de “cima para baixo”, correto?
LAS –
Sim, e desde cedo já identificava e refletia que trabalhar dessa maneira iria ocasionar enfrentamento de dificuldades, que já identifiquei desde o começo. Hoje, quando falamos em ensino, falamos em cinco instâncias: teoria, prática, laboratório, campo e à distância. Com isso, percebi que teria muitos enfrentamentos na parte laboratorial.

A solução foi pensar no ensino em outros ambientes pedagógicos, outros espaços da cidade como a praça e o cemitério. Essa vivência tornou-se uma prática laboratorial, com ferramentas táticas, como smartphones, celulares com câmeras. Isso exigia dos alunos mais criatividade para aliar conhecimentos e práticas.

O que realizamos em Alto Araguaia gira em torno de pensar a ideia de que laboratório não se condiciona apenas à estrutura, porque os recursos que dispomos são diferentes de uma universidade na capital. Essa reflexão abrangeu tanto professores quanto alunos. Desde o início do curso, deixei claro que o grande potencial, a matéria-prima a ser trabalhada na cidade, não consistem em novas tecnologias e, sim, inovação cultural.

Lawrenberg

Lawrenberg durante atividade de campo com alunos na cidade de Alto Araguaia. (Foto: acervo do pesquisador)

FC – É assim que você sempre apresenta nos congressos: “o interior do interior do Brasil”?
LAS –
Exato. Inclusive, tomei cuidado de ler o projeto do curso, que já tinha a proposta de se firmar no cenário semi rural do país. O leitor de jornalismo em Alto Araguaia é diferente de Cuiabá, ainda com limitações de letramento e um repertório cultural peculiar, bem distinto, sem acesso fácil aos meios tradicionais e recorrendo a meios alternativos. Trabalhamos mais as interações face-a-face, o lado humano e o comunitário.

Como agora trabalho na abordagem da Folkcomunicação (corrente teórica idealizada por Luiz Beltrão e que contempla grupos marginalizados pela grande mídia), isso acaba se configurando em um campo de trabalho ideal para o ensino. E a Folkcomunicação também aborda os líderes de opinião nas comunidades. Então, é por prestar atenção nesses atores sociais da cidade que foi possível realizar um movimento contra hegemônico, um movimento para pensar sobre outras configurações e realidades.

FC – E para os alunos, é também uma possibilidade de empoderamento, certo?
LAS – Sem dúvida. O primeiro desafio foi mostrar para eles que tudo congrega, conjuga para o fazer social, uma interlocução social. Uma possibilidade de transformação social. Porque a pesquisa também pode se configurar em uma forma de transformação social e cultural, inclusive dos próprios alunos em suas percepções e amadurecimento acadêmico.

A grande mudança começou a partir do momento em que, a partir da transformação social na localidade. Percebendo que o aluno pode narrar um fato, sensibilizar o leitor por esse fato, mesmo sem muitos recursos, como é a realidade das universidades públicas brasileiras.

E isso ocorre em uma condição tática de formação profissional em jornalismo. Quero frisar que esse processo teve sempre como premissa propor soluções, além de só reclamar, que gera um círculo, uma espiral viciosa e improdutiva. Problemas existem, reconhecemos que existem. O diferencial é buscar situações para contorna-las, e isso se configurou em uma ruptura paradigmática que agora está traduzindo em resultados. A cidade está se tornando referência em pesquisa experimental em comunicação, com base em especificidades locais.

Estudante durante atividade de campo em cemitério (Foto: acervo do pesquisador)

Estudante durante atividade de campo em cemitério (Foto: acervo do pesquisador)

FC – E como isso se configurou em uma nova perspectiva de ensino?
LAS – O aluno, ao longo do curso, segue assimilando sobre o papel social do jornalista, sabendo das expressões como “interesse público” e “interação social”, “informação como um bem público”. E faço isso nas minhas aulas pelas vivências dentro da cidade. E foi assim que transformamos uma universidade, em um cenário quase invisível (a região do Araguaia é geralmente considerada como “o Vale dos Esquecidos”) em referência de pesquisa num espaço de cinco anos. Uma vitória, uma conquista, realmente.

Por exemplo, ministro Planejamento Gráfico. Nesse caso, procuro fazer com que, nos trabalhos de fotografia, os alunos busquem conciliar o máximo possível forma e conteúdo, pois fotografia não é apenas ilustração, é informação, é dado de pesquisa. E, além disso, há a preocupação estética também. É isso que procuro passar a meus alunos nessas incursões pela cidade.

FC – Quais são as outras atuações em pesquisa que está realizando?

Revista impressa "Mixtura". Ao fundo, Paróquia Nossa Senhora Auxiliadora, a igreja matriz de Alto Araguaia (Foto: Acervo do pesquisador)

Revista impressa “Mixtura”. Ao fundo, Paróquia Nossa Senhora Auxiliadora, a igreja matriz de Alto Araguaia (Foto: Acervo do pesquisador)

LAS – Quero destacar a criação da revista científica (Comunicação, Cultura e Sociedade) em 2012, com os professores Antônio Carlos Sardinha e Marli Barbosa. Uma verdadeira saga, realmente, tanto para atrair pareceristas e obter o International Standard Serial Number (ISSN – índice aceito internacionalmente para individualizar o título de uma publicação seriada), ainda mais em uma universidade que ainda não tem programa de Pós-Graduação.

Hoje, temos colaboradores de diversas partes do Brasil e do exterior, a partir de 2013, no Conselho Científico. Estamos na quarta edição e a partir desta, adotaremos o sistema de fluxo contínuo.

FC – Para concluir, gostaria de acrescentar mais alguma coisa?
LAS – Em primeiro lugar, é preciso ser ousado, assimilar e enfrentar as resistências que surgirem, pois foram muitas ao longo da trajetória. Fui questionado por alunos e colegas. Foi um processo gradual, mas que está gerando frutos e consolidando essa abordagem dentro do curso, por meio da pesquisa. No câmpus, estava faltando uma busca por protagonismo, esse empoderamento.

E isso foi conseguido a partir do momento, em que, realizando um processo conjunto com eles, passaram a superar déficits de aprendizagem e se conscientizar de suas possibilidades. Vale ressaltar também que todos esses resultados foram consequência de um processo.

Entrevista concedida a Taís Ueta

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