Pagadores de promessas

Ex-votos

Ex-votos no Santuário Nossa Senhora da Penha, em João Pessoa-PB (Foto: Júnia Martins)

O ex-voto é uma manifestação cultural enraizada na tradição greco-romana. Configura um “acerto de contas” de natureza mística.

Ao perder as esperanças na solução terrena de  problemas do cotidiano, geralmente as pessoas recorrem diretamente  às divindades. Pedido feito, elas aguardam a solução. Se o resultado satisfaz, o pedinte cumpre  o prometido. Ninguém quer figurar na lista dos inadimplentes.

Daí, as demonstrações coletivas realizadas pelos pagadores de promessas, como bem espelhou Dias Gomes em sua dramaturgia multimidiática

Apesar de amplamente difundidos no Brasil, os ex-votos nunca mereceram tratamento sistemático por parte da vanguarda eclesiológica.  Como diriam os profetas afro-descendentes: aquela que “faz a cabeça”  do nosso episcopado.  E por tabela configura a “ideologia” que regula a conduta da intelectualidade brasileira.

O mais antigo registro desse fenômeno, na cartografia folkcomunicacional brasileira, foi feito pelo arquiteto Luis Saia (1944), que ousou identificar como obras de arte esculturas oriundas das “salas dos milagres”.

Depois disso, o silêncio em torno da questão foi quebrado, mas não interrompido. Luiz Beltrão publicou em 1965 seu histórico artigo – O ex-voto como veículo jornalístico -, suscitando controvérsia  nacional.

Enquadrado pelos teólogos politicamente corretos na categoria dos exegetas das crendices populares,  o patrono da Folkcomunicação foi excluído a priori da ágora reservada  aos militantes da pedagogia dos oprimidos.

Enquadrado como extensionista, populista ou  desenvolvimentista, Beltrão foi automaticamente recusado  na legião dos bem-aventurados que os purificadores do catolicismo latino-americano idealizaram como sua marca registrada.   Mesmo assim, a corrente beltraniana manteve-se fiel às circunstâncias que determinam a opção dos marginalizados  pela construção do reino aqui e agora.

Desta maneira, temos assistido o descompasso que se estabeleceu entre as práticas de comunicação horizontal nutridas pela religiosidade popular e as expectativas de purificação vertical do catolicismo latino-americano.

É nesse  cipoal cognitivo,  repleto de simulações discursivas  e dissimulações retóricas,  que Luis Erlin Gomes  Gordo finca os “pés  na terra” para elucidar as circunstâncias determinantes da supressão do espaço que a centenária revista Ave Maria dedicou aos ex-votos no período 1898-1970.

Narrativa clara, bem documentada, comovente e edificante,  o livro Ex-votos, saga de uma comunicação perseguida (São Paulo, Ave-Maria, 2015) prende a atenção do leitor, da primeira à última página. Qualquer tentativa de explicação complementar pareceria supérflua, pretensiosa, desnecessária.

Com elegância, Luis Erlin  eclipsou as impertinências que constrangem os leitores das periferias acadêmicas. O lançamento deste livro será o ponto culmiknante do II Encontro Internacional de Folkcomunicação (São Paulo, Centro Cultural da INTERCOM, 19h, dia 28/Março/2015).

por José Marques de Melo

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