Autor de *" Deu no New York Times "*, o
jornalista norte-americano Larry Rohter, aquele da reportagem sobre os
hábitos de bebida do presidente, possui uma coleção de cordel, desde
1972, com mais de 2.000 títulos.
Foi nos folhetos comprados em feiras nordestinas que ele soube das
histórias sobre Lula e acompanhou também as campanhas eleitorais por
fontes de conteúdo menos previsível. Ficou tão fã que Rohter vai incluir
em seu próximo livro, a ser lançado em 2011, um texto sobre José
Francisco Borges, mais conhecido como J. Borges, autor de cordel mais
famoso em Pernambuco.
No Recife, a *Livraria da Folha* encontrou os folhetos de J. Borges em
lojas na Casa da Cultura, que foi uma cadeia no passado, e também nos
boxes do Mercado de São José, os dois principais endereços para a compra
da literatura de cordel na capital pernambucana. Conversando com
vendedores, descobrimos a temática preferida dos fãs do cordelista de
Bezerros
(interior pernambucano): homossexualidade.
Entre os títulos mais procurados, estão "Corno, Bicha e Sapatão - Os
Sacanas de Hoje em Dia" e "O Casamento do Boiola". Para quem não está
familiarizado com a literatura de cordel, a primeira reação é de
relacionar esses folhetos com a prática da homofobia. Mas mergulhando
nesse universo da cultura popular, há outras leituras menos óbvias.
Abordar um tema gay não é apenas para causar riso ou escárnio. Também
significa incluir um assunto da agenda homossexual na discussão dos fãs
desse gênero literário, bastante consumido principalmente no interior do
país.
Em "O Casamento do Boiola", J. Borges revela, por exemplo, a
discriminação de um deputado contra um filho gay.
/"Havia um político famoso/
/Muito forte e respeitado/
/do povo de sua terra/
/era muito acreditado/
/eleito em todas as campanhas/
/mas tinha um filho viado"/
Nesse cordel, o autor também alfineta a Igreja Católica, mostrada como
submissa às doações de dinheiro por políticos. O deputado paga uma
propina de R$ 10 mil para que o padre realize a cerimônia de união do
filho com o parceiro.
Em "Corno, Bicha e Sapatão - Os Sacanas de Hoje em Dia", ele aborda as
relações de poder entre um casal lésbico formado por uma dona de casa
com sua empregada e as reações temperamentais por causa do ciúme,
clichês de qualquer publicação voltada para o público GLS.
/"Sapatão é a mulher/
/que vê a outra e lhe palpita/
/come a outra com os olhos/
/quando o sangue se agita/
/ela se agarra com outra/
/salta, chora, berra e grita"/
Até o preconceito social no meio gay é alvo da observação astuta do
cordelista.
/"Existe o viado pobre/
/e o rico social/
/que é rico e tem dinheiro/
/paga bem o bacanal/
/depois leva ao motel/
/levantando o seu astral"/
Mesmo como surgimento de meios eletrônicos de leitura, o cordel (em
geral, em dez páginas) ainda resiste no Nordeste, expressando a tradição
oral da cultura popular e incentivando a leitura em regiões mais pobres,
sem acesso a livrarias nem bibliotecas. A tiragem inicial costuma ser de
1.000 folhetos, vendidos principalmente em feiras e mercados, com
impressão informal em gráficas. Relativamente, a vantagem do autor é até
maior. Ele vende por R$ 1 cada folheto, que chega ao consumidor por R$
2, ou seja, uma participação de 50% no valor final da obra. No mercado
editorial formal, das grandes editoras, um autor chega a comemorar
quando consegue uma taxa de 10%.
|