Folkcomunicação das catedrais europeias

catedraisQuem viaja pela Europa e já teve a oportunidade de visitar as grandes catedrais como Notre-Dame de Paris, Chartres, o Duomo de Milão, S. Petrônio de Bolonha ou mesmo Santa Maria de Florença, certamente, não sabe os mistérios e as lendas que envolvem o imaginário popular e  folkcomunicacional sobre a construção de cada uma destas edificações. As grandes cidades européias têm catedrais antigas, construídas geralmente na Idade Média e que hoje como no passado são verdadeiras obras de arte, símbolo de fé autêntica, orgulho desmedido e ostentação de poder e riqueza dos faustos da Igreja. Em torno destas construções a imaginação popular criou centenas de estórias que hoje compõem o universo folkcomunicacional das catedrais européias.


Catedral de Chartres

A Catedral de Chartres, por exemplo, demorou dezenas de anos para ser construída e os carros que transportavam o material necessário à sua edificação eram puxados por pecadores arrependidos que queriam de qualquer forma pagar seus pecados a Deus e ter consciência tranqüila.

 

Catedral de Milão

A Catedral de Milão, um verdadeiro monumento de arte barroca que impressiona a todos que vão visitá-la, é um ex-voto oferecido pelo nobre Gian Galeazzo Visconti, o Conde da Virtude, que matou o tio e mandou erguer a igreja para agradecer a Nossa Senhora pelo sucesso do assassinato.

Catedral de San Petrônio

O imperador Carlos V, ao ser empossado, foi coroado na pequena e singela igreja de San Petrônio, em Bolonha, sem grandes pompas, porque seus soldados haviam pilhado e profanado a catedral maior dos cristãos, San Pietro, a Roma, sede do poder máximo da Igreja, durante uma batalha alguns anos antes.

Catedral de Monreale

A famosa Catedral de Monreale, na Sicília, dedicada à Virgem, foi construída por pedreiros muçulmanos porque eram hábeis construtores, não bebiam, não blasfemavam e viviam num reino tolerante com minorias não cristãs.


Catedral de São Estevão, Viena

A argamassa de cimento que edificou a Catedral de S. Estevão, em Viena,  foi temperada com vinho que o Rei não gostou e para não jogar fora, mandou usar na construção religiosa, mas a igreja está lá até hoje bela e imponente.  Estas e outras histórias foram recolhidas pelo historiador italiano Cesare Marchi, pesquisador de folkcomunicação na Itália,  e publicadas em livro publicado na Itália e traduzido para o Brasil com o título Grandes Pecadores, Grandes Catedrais. O relato do autor é minucioso, envolvendo e contornado de humor. De maneira clara e refinamento, ele percorre a história folkcomunicacional da Idade Média em detalhes que surpreendem. Ele faz a reconstrução da história das construções das principais catedrais européias que são orgulho da fé cristã, mas que nas quais o bom Deus se viu constrangido a conviver com pecadores, prostitutas, bêbados, assassinos e também com o próprio Diabo.

Notre-Dame de Paris

O livro conta a história das igrejas de Bolonha, Chartes, Córdoba, Florença, Gênova, Milão, Paris, Monreale, Nápoles, Roma, Sevilha, Viena, Veneza e Verona. A histórias destas quinze catedrais mostram uma outra face da Idade Média onde as pedras nos falam de histórias de amor e de morte, as lápides nos contam a gesta de príncipes soberbos, mas também de vidas inteiras dedicadas ao serviço de Deus.

Diabo vê Paris, Catedral de Notre Dame

A Idade Média, também chamada de Medieval, foi uma longa noite entre a Antiga e a Moderna, mas também nos trouxe, além das catedrais, algumas invenções importantes. Devemos a ela o moinho do vento, a letra de câmbio, o contrato de seguro, a democracia comunal, as Sumas Filosóficas, a Canção de Rolando e A Divina Comédia, de Dante. Era a época em que a Ciência, a Filosofia e a Arte eram servas de fé. Basta ver as catedrais das grandes cidades européias cuja arquitetura monstruosa e cheia de detalhes são mostra de ciência, técnica e arte para enaltecer a fé das multidões.

 

Entrada de Notre-Dame de Paris

As imagens de Deus e Diabo foram, sem dúvida, as figuras que marcaram presença constante no imaginário da massa da Idade Média. O Diabo, sem dúvida, foi quem de maneira eficaz perturbou o sono das multidões dessa época. Houve até quem o descrevesse como um ‘homem baixo, de pescoço magro, o rosto macilento, olhos bem pretos, testa rugosa, narinas finas, boca proeminente, lábios grossos, dentes de cachorro, orelha pontuda e peludas, crânio em ponta, peito inchado, uma corcunda nas costas e nádegas frementes’. É a descrição de um monge de Bolonha. Rodolfo dil Glabro, feita por volta do ano l.000. Atribuíam-se ao Diabo nove filhas: a simonia casada com os clérigos, a hipocrisia com os monges, a rapacidade com os cavaleiros, a profanação com os camponeses, a simulação com os servos, a fraude com os mercadores, a usura com os burgueses, a pompa com as matronas, e por fim, a luxúria que não quis se casar, mas que se oferece a todos como amante comum.

Diabo e sua esposa

Dessa forma, para deter o Diabo, nada mais eficaz que uma igreja. Daí a importância que o templo religioso toma conta das grandes massas em todos os sentidos de sua vida cotidiana. Mas ao contrário do que muita gente pensa, as igrejas não eram só locais de reza ou de meditação. Na Idade Média eram o único local capaz de abrigar as multidões em caso de calamidade ou de grandes pestes. Também não eram dotadas de cadeiras ou bancos para se sentar como hoje em dia. A Catedral de Chartes, por exemplo, na França, ainda guarda as fendas nas paredes por onde escorriam as fezes na hora da faxina. As missas dominicais eram o grande ponto de encontro de toda a população de uma localidade. Por isto mesmo eram o local escolhido para namorar, marcar encontros, realizar negócios, discutir p
olítica, debater doutrinas e até mesmo matar. Pois o crime passional ou político não respeitava os altares. Em Florença, por exemplo, em abril de 1748, aconteceu a conjuração dos Pazzi, um grande acontecimento policial, digno de manchete das páginas policiais, que marcou uma época com o assassinato de toda uma família pela rival. Dois antes, o nobre Galeazzo Maria Sforza fora morto por conspiradores em Milão quando entrava na igreja de San Estevão. Todos os homens da poderosa família Chiavelli foram também assassinados em Fabriciano, no dia da Ascensão de Nossa Senhora, em 1435. Thomas Bechet foi morto por quatro cavaleiros na Catedral de Chamterbury, por ordem do Rei Henrique II, da Inglaterra, em 1170.

Assassinato na igreja

Enfim, a pesquisa do italiano Cesare Marchi é uma preciosidade histórica, cheia de curiosidades sobre os bastidores das grandes catedrais e a vida cotidiana das populações de vários países na Idade Média. Escrita em estilo jornalístico, apresenta uma visão pouco conhecida das igrejas e da Idade das Trevas. Vale a pena ser lido como documento histórico que nos ajuda a compreender uma época controvertida.

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