Cultura popular cibernéica é tema de pesquisa

cordel jborgesA pesquisadora pernambucana Marie Alice Amorim investiga a apropriação da literatura tradicional dos cantadores pelos poetas cibernéticos. Confira a matéria publicada pelo Jornal do Commercio.

E claro que o trabalho de Maria Alice, escrito originalmente como dissetação de Mestrado em Comunicação e Semiótica na Universidade de São Paulo, reflete as faíscas que as palavras cordel e tradicional costumam soltar: “Há aí dois conceitos importantes a serem problematizados: o cordel e o tradicional. Ao elaborar a reflexão proposta na ideia que o cordel precisa ser tradicional, perguntaria antes: o que é o cordel, o que é o tradicional e quem está habilitado a ser cordelista? Um outro conceito também chega nessa discussão: o popular. Por ser etiquetado como poesia popular, equívocos aparecem e um deles, muito forte, é querer excluir o cordelista do mundo das letras. Ou seja, poeta bom é poeta analfabeto. Esse erro, além de gritante etnocentrismo, embute questões ideológicas e desconhecimento sobre o assunto. O cordel é expressão poética escrita, mesmo estando incluído entre as poéticas de oralidade”.

Para Maria Alice, nem toda produção que aparece com o nome de cordel deve ser levada em consideração. “Há quem ache que a arrumação das palavras em estrofe, qualquer rima pobre e um tema simplório bastam para se fazer um cordel. Entretanto, para garantir a qualidade é que entra o manejo talentoso da sofisticação quanto à estrutura das poéticas do oral. As modalidades de estrofes, os tipos de rima, o ritmo poético, a métrica, os recursos e figuras de linguagem remetem, sim, a um fazer poético tradicional, e elaboradíssimo, que remonta à técnica dos provençais. Os temas, que podem estar incluídos no vasto repertório temático de histórias tradicionais narradas sob a forma de cordel, precisam de tratamento poético, a fim de extrapolem a condição de versejamento mediano. Portanto, é preciso ser dito que cordel traz implícito no nome esse fazer tradicional, que vem sendo produzido ao longo de séculos, e que jamais poderia ser exclusividade de um segmento social, cultural. Até porque a cultura é dinâmica”, defende.

A pesquisa lançada hoje, pela editora da PUC-SP com patrocínio de R$ 29 mil do Funcultura, reflete a atração da pesquisadora em relação ao gênero “pelejas”. Não só as pelejas de cordel, mas as pelejas de improvisadores, como, por exemplo, o repente de violeiros, de mestres de maracatu e de caboclinho, de coquistas, cirandeiros. No cordel, o gênero denominado “peleja” comparece ao longo de toda a história da literatura brasileira. E na portuguesa também temos registros.

“O cordelista, quando escrevia uma peleja, geralmente inventava que dois violeiros haviam se encontrado e participado de um desafio poético – o cordel tratava de toda a ambiência, dos preparativos da cantoria e dos versos que um ‘despejava’ no outro. Era uma narrativa inventada, que simulava a existência de duas vozes poéticas e que, por sua vez, oferecia modalidades poéticas típicas do repente, mas, claro, ali nada era improvisado, era escrito com todo o tempo que o poeta precisasse para escrever e reescrever. Isso, até antes de 1997, quando surgem as pelejas virtuais: a partir de então dois ou mais cordelistas decidem pelejar com a mediação da internet (e-mail, MSN, Orkut, Twitter etc.) e aí, no mundo da cibercultura, a peleja não é mais inventada, existem de fato diferentes vozes poéticas, como na cantoria, como na roda de glosa, mas sem a obrigatoriedade de a disputa ser improvisada”, destaca Maria Alice.

Mas o que perdeu e ganhou as pelejas com essa intervenção virtual? “A internet desencadeou um processo de comunicação entre poetas, próximos e distantes geograficamente, e o resultado é que esse processo se traduziu em emulação poética, em produção poética. As pelejas virtuais são um exemplo disso, e serviram para desencadear outras formas de os poetas interagirem entre si e com o público apreciador de poesia. Mesmo as pelejas virtuais acontecendo via web os poetas também não abrem mão de imprimir a peleja no formato tradicional do cordel. Os blogs, os sites, portais dão conta dessa produção digital e também da produção editorial impressa. E, rapidamente, tomamos conhecimento do que os cordelistas vêm fazendo Brasil afora. Agora, nem tudo o que está na rede presta. Mas, precisar distinguir o que é bom não é necessidade exclusiva de internauta”.

Fonte:
Jornal do Commercio, 29 de julho de 2009

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