Brasil se despede de José Marques de Melo

Aos poucos, universidades, entidades, grupos de pesquisa, imprensa do Brasil e de outros países endossam a profunda tristeza pela partida de um dos maiores contribuintes dos estudos científicos da Comunicação brasileira, latino-americana e mundial. Cinco dias após seu aniversário de 75 anos, José Marques de Melo deixa, aos pesquisadores contemporâneos, a enorme responsabilidade de perpetuarem um legado construído em mais de cinquenta anos de carreira.

Foto: Júnia Martins.

É inevitável citar seu nome sem mencionar a vastidão da construção bibliográfica e a importância das funções profissionais que ele assumiu ao longo da vida. Seu brilhantismo intelectual foi decisivo para a sedimentação do estudo científico da Comunicação no Brasil. JMM, como era conhecido por pessoas próximas, conseguia valorizar o olhar local, a riqueza da cultura do povo brasileiro, sem deixar de estabelecer teias globais a partir das realidades regionais, das zonas de pertencimento identitário. Quem convivia com ele, porém, sabia que a maestria na condução das trajetórias acadêmicas não era seu único dom.

Aqueles que tiveram a sorte de encontrá-lo no caminho da academia, encontraram mais que um professor altruísta, sedento por conhecimento e por ações efetivas de ampliação dos estudos midiáticos. Ele tinha também habilidade em aconselhar, instruir e estimular. Era receptivo para ouvir novos pesquisadores, delegar e assumir missões científicas. Mesmo diante do Mal de Parkinson que o acompanhou nos últimos anos de vida, não desanimou. Continuou sustentando os olhos brilhantes diante dos jovens e dos veteranos que o cercavam nos eventos de pesquisa, mantendo a audição sempre atenta para as histórias e problematizações lançadas por cada um. Sua experiência o fazia preciso, prático; mas sem abandonar a característica ímpar de ser um sonhador. Um sonhador teimoso, diga-se de passagem, que pensava diuturnamente em maneiras diversas de continuar contribuindo com as questões sociopolíticas do país e com as pesquisas em Comunicação, especialmente.

A obra deixada por JMM certamente é uma das contribuições mais relevantes para o campo das Ciências Sociais Aplicadas brasileiras. Uma obra materializada que deverá tomar eco dentro e fora das salas de aula, firmando o pensamento que lhe era inerente: de que temos inteligência e riquezas culturais suficientes para construir ciência, com qualidade, a partir de nossos localismos e com nossos próprios pés.

A outra obra que a partida do professor Marques de Melo faz revelar neste momento é, contudo, intangível. Trata-se das sementes lançadas, em cada um dos seus alunos e colegas. Sementes oriundas das mãos de um plantador visionário, que sabia cultivar ciência de forma humanizada, com preocupação metodológica e destreza na escolha dos terrenos. Uma ciência que nunca esteve apartada do afeto. E é essa memória afetiva que certamente ficará referenciada em cada pessoa que o teve como mestre e amigo.

Por Júnia Martins

 

Breve biografia

Nascido em Palmeiras dos Índios-AL no dia 15 de junho de 1943, Marques de Melo começou a trabalhar como jornalista integrando a equipe dos jornais Gazeta de Alagoas e Jornal de Alagoas no final dos anos 1950. Em 1964, formou-se em Jornalismo pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) e, no ano seguinte, se graduou em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco. Em 1966, iniciou sua carreira no Recife-PE como assistente do professor Luiz Beltrão, no Instituto de Ciências da Informação (Inciform-Unicap). Tal proximidade lhe possibilitou grande influência para continuar os estudos das Ciências da Comunicação, assim como da Folkcomunicação, teoria beltraniana.

Ao mudar para São Paulo, deu início às atividades na Faculdade Cásper Líbero, no período, vinculada à Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP). Foi na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) que legitimou o Jornalismo como novo campo de conhecimento com a primeira tese de Doutorado do Brasil com o título Fatores socioculturais que retardaram a implantação da imprensa no Brasil. A ECA também foi fruto do seu esforço, primeira escola de Comunicação da América Latina, a qual ajudou a fundar.

Por maior que fosse sua contribuição, porém, não faltaram tentativas para minar a continuidade da sua batalha. Em seu retorno do exterior, após terminar um estágio pós-doutoral, teve seu mandato na USP cassado devido à perseguição do regime militar. Ficou por muito tempo impedido de lecionar em qualquer universidade pública do país.

Acolhido pela Igreja Metodista, na qual encontrou ambiente favorável ao desenvolvimento dos projetos interrompidos na USP, em 1975 criou o Centro de Estudos de Pós-graduação da instituição, estruturando programas de mestrado e doutorado nas áreas de Comunicação Social, Administração, Psicologia e Odontologia. Três anos depois, ajudou a fundar o Programa de Pós-graduação em Comunicação Social da UMESP, que este ano completa 40 anos.

Em 1979, José Marques de Melo reassumiu sua cátedra na USP, exercendo-a em regime de dedicação exclusiva ao ensino e à pesquisa. Durante a gestão do reitor José Goldemberg, foi escolhido para exercer o cargo de diretor da ECA, cumprindo um logo mandato que se encerrara em 1993, quando se aposentou por decisão própria. Retomou, então, seu legado no Programa de Pós-graduação em Comunicação Social da Umesp, que foi agraciado com o curso de Doutorado.

Reconhecido academicamente em territórios nacional e internacional, assumiu a coordenação da Cátedra UNESCO de Comunicação para o Desenvolvimento Regional, instalada na Umesp em 1996. A honraria foi concedida pela Universidade Autônoma de Barcelona em 1992. Entre os anos de 1997 a 2000 dirigiu a Faculdade de Ciências da Comunicação da Universidade Metodista de São Paulo e realizou ampla reforma pedagógica, sintonizada com as novas diretrizes curriculares do Ministério da Educação.

JMM é detentor do Acervo do Pensamento Comunicacional Latino-Americano, inaugurado em 1999 dentro da Cátedra Unesco. Foi, por longos anos, Presidente do Conselho Curador da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom) e Presidente Emérito da Rede Folkcom – entidades que contam com seu nome como fundador; além de Sócio Emérito da Sociedade Brasileira dos Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor).

Foi anistiado 45 anos após a perseguição política da ditadura, recebendo o pedido formal de desculpas do Ministério da Justiça em 2015. Entre as várias homenagens e condecorações recebidas, estão a medalha de ouro do CIESPAL, em 2015, pela contribuição à comunicação latino-americana; os Prêmios Jabuti 2013; Personalidade da Comunicação 2011; Ibero-americano de Teoria da Comunicação 2010 e o Internacional Comunicador da Paz 2009.

José Marques de Melo deixa sua esposa, dois filhos, três netos e uma legião de admiradores, alunos, ex-alunos, colegas de trabalho e amigos de diversos cantos do Brasil e do mundo. Deixa também, em mais de cem obras publicadas, os registros do seu pioneirismo nos estudos da Comunicação e uma história de vida movida pelos ensinamentos, formações e exemplo de humildade.

Por Flávio Santana

José Marques de Melo teve um infarto fulminante, falecendo em sua residência, em São Paulo, nesta tarde de 20 de junho.

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