A transformação das quadrilhas juninas e a Folkcomunicação

quadrilha juinnaA transformação das quadrilhas juninas tradicionais em direção a quadrilhas estilizadas revela uma faceta do debate sobre a globalização: o ressurgimento de culturas com bases locais ao invés da tão propagada padronização cultural. Mais do que isso, são manifestações culturais contemporâneas (re)significadas  para atender as demandas de consumo da sociedade midiatizada onde se misturam as experiências tradicionais e modernas, chamando a atenção para sua beleza mas também por sua sua origem na periferia da cidade, próxima às experiências dos excluídos, dos mais marginalizados pela sociedade.

 Recentemente, de 14 a 16 de junho, estive na cidade de Campina Grande/PB a convite da UEPB – Universidade Estadual da Paraíba, participando do 4º Seminário de Folkcomunicação com o tema central “Os festejos juninos no contexto da folkcomunicação e cultura popular”. Nesse período, à noite, acontecia o Festival de Quadrilhas Estilizadas, promovido pela Prefeitura Municipal, no Parque do Povo, evento que me despertou interesse, principalmente para ver o movimento dos grupos que se deslocavam dos bairros para o centro com as respectivas torcidas organizadas.

A minha observação se voltou para as apresentações das quadrilhas, que se exibiam para os jurados, e para as movimentações dos seus brincantes, do pessoal de apoio, dos familiares e das torcidas antes das apresentações. Na concentração a ansiedade aumenta quando se aproximava a hora da exibição do grupo, uns soltam gritos de guerra, outros pedem proteção ao seu santo de devoção, repassam a coreografia e tudo sob os olhares dos familiares, amigos e torcedores. São jovens entre 16 e 25 anos, a maioria habitantes dos bairros mais pobres de Campina Grande que, com muito sacrifício e contra todas as diversidades organizam, cada qual, o seu espetáculo. Cada quadrilha tem o seu enredo, a sua alegoria e a sua coreografia.

quadrilha juninaMas por que chamar de festival de quadrilha estilizada? É por que foge ao estilo considerado tradicional? Por que os seus figurinos e adereços não representam o matuto flagelado, ou o sertanejo típico Jeca Tatu? Ou ainda por que não é marcada em francês tupiniquim? A sociedade humana tece a sua cultura através dos mundos de experiências vividas em momentos históricos diferentes e de natureza paradoxal, justamente porque nada é igual no tempo e no espaço onde se manifestam as suas culturas, nem mesmo com a globalização isso é possível. Portanto, com a globalização cultural o que assistimos é o ressurgimento de culturas com bases locais ao invés da tão propagada padronização cultural. É evidente que são manifestações culturais contemporâneas (re)significadas  para atender as demandas de consumo da sociedade midiatizada onde se misturam as experiências tradicionais e modernas.

quadrilha juninaNão posso agora afirmar que são ou não quadrilhas juninas as danças com enredos cômicos, dramáticos e críticos que se apresentaram na Pirâmide do Parque do Povo, mas são espetáculos organizados que nos chamaram atenção não só pela beleza, mas sobretudo, pela sua origem na periferia da cidade. Melhor dizendo organizado por jovens que vivem próximos as experiências dos excluídos, dos mais marginalizados pela sociedade. Vejo nas “quadrilhas estilizadas”, ou mesmo nessas manifestações culturais o início de um novo gênero misto de dança e folguedo, tradicional e moderno, com grande potencial de comunicação desses jovens com o mundo de fora. A quadrilha campeã “Moleka 100 Vergonha” do bairro das Malvinas, um dos mais pobres da cidade, recebeu o prêmio de R$ 1.500,00 e logo ali pertinho, no palco principal se apresentavam as bandas que, com certeza, receberam polpudos cachês. As quadrilhas gastam em torno de R$5.000,00 a R$ 10.000,00. São esses tratamentos desiguais entre os produtores das culturas tradicionais e os produtores das culturas midiáticas que precisam ser revistos, não só pelo poder público, mas pela sociedade como um todo. Não podemos continuar olhando meio atravessado as quadrilhas juninas contemporâneas, e sim tentar compreender as significações das redes cotidianas de sociabilidades desenvolvidas por esses grupos culturais nas suas comunidades e nos palcos de exibições.

quadrilha juninaSegundo Hipolito Lucena, jornalista e pesquisador campinense, “um caso que conheço de perto é o da Quadrilha Brilha Sol, do bairro do Santa Rosa, daqui de Campina, eles se mantêm o ano inteiro em atividade, com estes trabalhos sendo desenvolvidos junto a Sociedade de Amigos de Bairro (SABs). É seguida por outro grupo do mesmo bairro a Brilha São João. Neste caso vale o pressuposto que as atividades lúdicas e artísticas aliadas a práticas populares do fazer/dançar quadrilha se apresentam como excelente meio para afastar os jovens da criminalidade, tão presente nos bairros periféricos”. Vejo também as quadrilhas estilizadas ou as tradicionais, nos festejos juninos atuais, como estratégia de inclusão social desses jovens que lutam o ano inteiro para organizar o espetáculo.  É, sem dúvida, um novo formato de “grito” da periferia para o centro, como se falassem para todos nós: “gente, estamos aqui!” Portanto, esses grupos de jovens deveriam receber maior apoio do poder público e privado, promotores do  Maior São João do Mundo.

Osvaldo Meira Trigueiro – Professor Doutor Associado da UFPB, Coordenador do NP de Folkcomunicação da Intercom, Vice-Presidente da Rede Folkcom, Membro da Comissão Folclórica da Paraíba.

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